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Colocações no Ensino Superior
Cursos em áreas estratégicas não recebem alunos
25.09.2006 - 08h19 Bárbara Wong , (PÚBLICO)

Em 1807 vagas, apenas mil ficaram preenchidas a Engenharia Civil. Em 14 cursos de Engenharia do Ambiente, só 264 alunos foram colocados, estando ainda 520 lugares a concurso. Engenharia Informática abriu 1638 vagas e pouco mais de metade foram ocupadas. Engenharia Florestal só preencheu 23 de 82 lugares. Engenharia Agronómica, Química, Física, Matemática...


Em mais de metade dos 989 cursos oferecidos por universidades e politécnicos ficaram vagas por preencher - abriram 46.528 e 11.687 estão à espera de ser ocupadas. A maioria dos cursos com lugares vagos são de engenharia e ciências aplicadas. O que afasta os alunos, quando faltam quadros nestas áreas?

"O mercado já não tem capacidade para absorver tantos diplomados em Direito, Sociologia, Psicologia... Só que a sociedade não quer a oferta que o ensino superior disponibiliza na área das ciências", lamenta o presidente do Instituto Superior Politécnico de Portalegre, Nuno Grilo de Oliveira. São os cursos com menor procura, como os das engenharias, que têm taxas de empregabilidade de cem por cento, com remunerações mais altas, acrescenta, com base num estudo feito na instituição a que preside.

Como é que numa região como o Alentejo, onde a agricultura está florescente, não há alunos interessados nos cursos de ciências e engenharia agrária, questiona o reitor da Universidade de Évora, Jorge Araújo.

Como é que um país que precisa de investir na floresta não consegue explicar aos jovens que pode haver saídas profissionais nesta área, pergunta Lopes da Silva, reitor da Universidade Técnica de Lisboa e presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP).Remodelar o ensino"Há um desfasamento preocupante entre as necessidades do país e o modelo do ensino não superior", sintetiza Ferreira Santo, bastonário da Ordem dos Engenheiros (OE). O problema está no ensino básico e secundário, continua. "É preciso remodelar o ensino não superior. É preciso ensinar bem Matemática e Física logo nos primeiros anos de escolaridade". É necessário que os professores tenham competências para ensinar, junta. O presidente do CRUP concorda: "Os primeiros sete anos de escola são fundamentais porque é nessa altura que os jovens criam premissas em relação às disciplinas que, mais tarde, são difíceis de mudar.

"Mas o problema está também nos exames, junta o presidente do politécnico de Bragança, João Sobrinho Teixeira. Afinal, três em cada quatro alunos do 12.º ano tiveram negativa no exame nacional de Matemática este ano, continua. E o mesmo se passa com os exames de Física e Química.

Falta de financiamento
Em cerca de um quinto das 989 formações postas a concurso entraram até dez alunos. Em 355 foram admitidos menos de 20. Duas dezenas de estudantes é o patamar fixado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) para que os cursos possam ser financiados pelo Estado. Foi com base nesse número que as instituições foram obrigadas a racionalizar a sua oferta para este ano - foram fechadas 87 formações.

Apesar disso, houve 23 cursos que as instituições optaram por abrir sem receber financiamento. Esse é feito através de receitas próprias. Foi o caso da Universidade de Évora, que ofereceu um total de 60 vagas para Ciências do Ambiente, Ciências Físicas, Engenharia Agrícola e Engenharia Geológica. Apenas 17 alunos foram colocados e nenhum escolheu Engenharia Agrícola. Ainda assim, o reitor Jorge Araújo está optimista e acredita que vão entrar mais alunos, nas próximas fases do concurso.No próximo ano, e se as vagas não forem preenchidas, as instituições terão de voltar a reflectir na sua oferta, dizem os responsáveis ouvidos pelo PÚBLICO. É que muitos cursos correm o risco de não ser financiados pelo Estado.

Público adulto
A esperança de algumas instituições, como os politécnicos de Bragança, Setúbal, Portalegre e Leiria e as universidades de Évora e Trás-os-Montes e Alto Douro, está no público adulto, os maiores de 23 anos que puderam concorrer, pela primeira vez, este ano. "Contando com esses alunos, ficaremos muito perto dos 100 por cento de colocações", declara Armando Marques Pires, presidente do politécnico de Setúbal.Só que este público dos maiores de 23 anos "é um mercado que rapidamente se esgota, porque à medida que se vai qualificando vai diminuindo a procura destas formações", calcula Nuno Grilo de Oliveira, do politécnico de Portalegre. "Seria bom que se iniciasse uma campanha, a nível nacional para sensibilizar os jovens para as áreas das ciências", defende Ferreira Santo bastonário da OE.

"Quando se fala em planos tecnológicos é complicado fazê-los sem meios humanos qualificados", termina Manuel José Santos Silva, reitor da Universidade da Beira Interior.


nm


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